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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Um papo sério - parte 1

Eu sei que certos assuntos estão mais do que batidos e virados do avesso, mas acontece que tem muita roupa que ficou por lavar ainda. Vamos conversar sobre preconceito, senta aí e aprecia o chá.
O preconceito, seja ele de que tipo for, é algo que deixa muito a desejar sobre o futuro da humanidade.
Teve um ano em que eu andei desesperada procurando trabalho e acabei achando uma vaga para empregada de mesa em um café. Enquanto estava preenchendo a ficha de inscrição para concorrer à vaga, entrou uma menina negra procurando se inscrever também.
Na hora eu vi que em vez de darem uma ficha de inscrição, deram um pedaço de papel tirado do caixa para ela preencher com os dados. Eu tinha uma amiga que trabalhava nesse café e perguntei o porquê de não darem uma ficha igual à minha, ao que a minha amiga me respondeu "O patrão não quer negros trabalhando aqui..." Alguma vez vocês sentiram que a nossa espécie deveria rastejar em vez de andar? Então, aquilo deu uma volta no meu estômago de tal modo que eu achei que ia vomitar ali mesmo.
Pouco tempo depois da menina sair, as empregadas que receberam a "ficha de inscrição" dela, jogaram o papel fora. Assim que o patrão chegou, elas o informaram das fichas de inscrição e minha amiga apontou para mim. E ele me olhou de alto a baixo, murmurou algo para minha amiga ao que a reação dela foi bater o pé para ele. Já tinha na ideia que algo não tinha agradado a vista do homem. Quando ele entrou na cozinha do café, minha amiga veio ter comigo irada. Quando perguntei o que havia ela me jogou outro balde de água fria "O patrão diz que você é muito bonita, mas que tem que vestir no mínimo 36, para atrair clientes." Na altura eu vestia um 40 e eu estava procurando um trabalho para trabalhar, não para desfilar. Era um café e não um bar de Strip. O homem não tinha nem a 4ª série, era alto e gordão e estava sempre de cara fechada, a esposa dele parecia uma porca no Carnaval, gorda e espalhafatosa de cílio postiço que dava a volta ao corpo tocando na bunda, no entanto, nem gordos, nem negros, nem homens, nem pessoas acima dos 40 anos, nem feios podem trabalhar naquele café, como se fossem incapazes de fazer um bom trabalho. Todas as mulheres que trabalham lá têm de ser perfeitas, para atraírem um monte de velho babão, mas não são perfeitas, são apenas meninas magras, brancas e jovens. Frisando que aquilo era um café e não bar de Strip.
Se isso para vocês não é motivo para temer pelo futuro do ser humano, se internem no hospital psiquiátrico mais próximo.
Eu pergunto, fere assim tanto a vista desses hitlers, ter alguém menos "mídia" trabalhando? Quando a gente vai em um café, com que objetivo a gente vai? Ver gente linda? Se você que está lendo isso, vai ao café com esse propósito, deixe que eu te informe que está indo no lugar errado. No café só tem gente que trabalha e ser lindo, alto, baixo, magro, gordo, negro ou branco é apenas característica da pessoa que não deve ser colocada à frente de um bom serviço que esta preste. Temos cinco dedos em uma mão e nenhum deles é igual e nem perfeito, porque as pessoas têm de ser perfeitas e todas iguais? Tudo magro, tudo lindo, não para trabalhar, mas para seduzir clientes.
Esses dias estive com uma menina negra, que está tendo imensa dificuldade para arrumar trabalho, não pela crise que Portugal se encontra, mas porque ela é negra. Desculpem a indignação, mas puta que pariu... Os portugueses viajaram o mundo de ponta a ponta, fizeram filhos que nem coelhos pelo mundo fora... Qual é gente? O que é que há com as pessoas? Às vezes eu acho que se eu soprar no ouvido dessa escumalha preconceituosa, vai ventar dentro do crânio e eu vou escutar a brisa.
Quando eu percebi o porquê de não darem trabalho para a menina, assim que eu cheguei em casa e me peguei sozinha eu comecei a chorar de raiva. Eu sou gordinha, não é defeito mas para satisfazer o capricho da sociedade e conseguir sobreviver dá para eu emagrecer. Mas e a pessoa que é negra faz o que? Se pinta de branco? Mergulha em farinha?
Você, preconceituoso de merda, todo mundo depois de morto apodrece, mas o preconceito apodrece a pessoa que está viva.
Sim, eu tenho preconceito, acho o verde uma cor feia em relação às outras. Acho que certas espécies animais são mais legais do que outras. Tenho nojo de barata. Tenho medo de gafanhoto. Mas em momento algum da minha vida, vou renegar um da minha espécie só porque tem características diferentes das minhas.



Rute.

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